A minha barraca de ervas.

Para equilibrar a existência do Marcos Feliciano no mundo. Para balancear o novo hit dos Leleks, do Michel Teló, do Psy, do Latino. Para ficar com a certeza que o mundo ainda vale a pena, apesar do Veloster. Para justificar a presença do “Profundamente sua” e coisas do gênero na lista dos livros mais vendidos. Para tentar entender o porquê do funcionalismo público ter virado o sonho de consumo do brasileiro. Para achar algum sentido nas camisas Dudalina. Para tudo isso, eu recorro à música.

Música é a minha fluoxetina natural. É o meu Prozac. Meu playlist é “Banho das Sete Ervas do Descarregos”. Olho para as canções como uma curandeira olha ao seu redor. Stevie Wonder é o meu “quebra barreira”. Marvin Gaye é o meu banho contra mau olhado. Jorge Benjor é a minha “garrafada para gastrite”. Tom Jobim é o meu chá de “amansa tudo”. Meu iPod é a minha tenda da Dona Coló. Eu sei como cada música vai agir.

Se a raiva é grande, dilua em um chá de Kurt Cobain com Nine Inch Nails. Se a alegria é intensa, tome um banho de Wilson Picket com uma pitada de Otis Redding. Se a tristeza dói, evite Radiohead. Tenho tabuletas e receitas para cada mal. Na minha banca, disponho de diversas poções mágicas para atrair coisas boas. Basta um play para que a alquimia comece a funcionar. Na verdade, a música me emociona frequentemente. Nela, eu posso reencontrar valores perdidos, buscar lembranças, vasculhar os meus sentimentos.

Poderia citar inúmeros momentos em que chorei com uma música. Metade deles conectados com as minhas filhas. Não vem ao caso. Prefiro falar de dois personagens que me fazem acreditar que é possível. Charles Bradley é o primeiro deles. Um cantor maravilhoso de soul que só foi descoberto depois dos 60 anos de idade. Isso mesmo: 60 anos. Até então, trabalhava como chef de cozinha e juntava seu dinheiro ao longo das décadas para um dia tentar realizar o seu sonho. Conseguiu.

Lembro do impacto de ouvir a sua voz carregada de verdade. A canção era “The World (is going up in flames)”. Achei que era uma gravação antiga. Como eu pude ficar tantos anos sem ouvir esse cara? Uma rápida pesquisa revelou toda a história de Charles Bradley. O que já era amor virou paixão no momento que eu vi um vídeo de um show dele. Ele grita, chora, escancara cada recanto da alma. Ele canta puxando os sentimentos do dedão do pé. Nada fica de fora. Ele reergue as minhas crenças em dois discos maravilhosos: “No Time for Dreaming” e “Victim of Love”.

Depois, veio o Rodriguez. O Max de Castro falou de um documentário chamado “Searching for Sugar Man.” Isso foi antes do Oscar.  Fiz tudo legalmente como manda o figurino. Entrei no iTunes e baixei o danado. Quando eu percebi, estava chorando dentro de um avião. É das histórias mais inacreditáveis que eu já vi. Se fosse uma ficção, eu acharia que pesaram a mão. Porque afinal de contas, isso nunca poderia ter acontecido. Só que aconteceu.

Resumindo: o cantor e compositor Sixto Rodriguez lança dois discos nos EUA. Os dois são um fracasso retumbante. Nesse mesmo período, início dos anos 70, os discos chegam à África do Sul. Rodriguez vira um ídolo maior do que Elvis Presley. Sua música vira o hino de uma geração inteira. Pessoas tatuam seu rosto no corpo, colocam seu nome nos filhos. Só que ele nunca soube de nada disso. Para os sul-africanos, era um ídolo que tinha se sucidado no palco. Até que décadas depois, algumas pessoas resolvem investigar o que tinha acontecido. É um história que dissolve as minhas desconfianças. Escuto os seus discos como quem procura a fé perdida. E a encontro.

Ouvir Charles Bradley e Rodriguez é muito mais do que música. É sobre esperança. Na minha barraca de ervas, eles são o novo elixir. Coloco o fone no ouvido como quem toma um banho de sal grosso. De pipoca. De cheiro-cheiroso. Tudo está equilibrado. Consigo até admitir a possibilidade de habitar o mesmo mundo que o Malafaia.

 

Quem liga para isso?

1993. Aeroporto de Chicago. Estou dentro de uma van, sem hotel reservado e com uma mala repleta de gaitas. O motorista da van, um sujeito que deve ter inspirado a primeira cirurgia de redução de estômago, aguarda os outros passageiros. Enquanto isso, ele sorve mais um gole do seu refrigerante de 2 litros. Na outra mão, repousa um sanduíche do tamanho de uma criança de 5 anos, regado com doses generosas de mostarda. Entre as pernas, há um pacote de batata frita que um elefante acharia exagerado. Absolutamente surpreso com toda aquela comida, ouço uma pergunta feita com a boca cheia:

- O que (nhac) você veio (nhac) fazer aqui?

Hipnotizado pelo pedaço de queijo que está preso no seu queixo, demoro alguns segundos para responder:

- Eu quero conhecer mais do blues.

Ele ri. O pedaço de queijo desprende e cai fazendo barulho ao pousar na sua perna. Da perna para a boca foi um milésimo de segundo. Ele ri mais alto agora:

- Blues? Quem liga (nhac) para isso?

Eu tinha acabado de chegar na Sweet Home Chicago. Em busca dos ídolos, do verdadeiro blues, do aprendizado. Minha euforia foi soterrada pelas 20 mil calorias daquela van.

No dia seguinte, com a programação musical da cidade em mãos, quero derrotar a profecia do meu anfitrião glutão. Descubro que Kingston Mines, B.L.U.E.S e o Buddy Guy’s Legends são alguns dos bares com programação de blues nos 7 dias da semana. O calendário previa shows do Sugar Blue, Billy Branch, Otis Rush, Magic Slim, Big Time Sarah, Peter Madcat, Luther Allison, Jeff Healey e o grande Buddy Guy. Minha temporada estava garantida. Adentro orgulhoso pelo Kingston Mines e me deparo com o salão vazio. A profecia não estava tão errada.

A vida de um músico de blues não é fácil nem para os mestres, pensei. Naquela viagem, comecei a desistir de uma carreira de músico profissional. O menino branco brasileiro não poderia esperar mais do que uma lenda do blues. E eu vi os grandes nomes do blues tocarem para salões vazios com ingressos a 8 dólares. De quinta a sábado, o panorama mudava um pouco. As casas ficavam sempre cheias. De domingo a quarta, já era bem diferente. Buddy Guy era o filho pródigo da cidade. Já estava em uma situação mais confortável. Era uma exceção.

Toalhas brancas? Esquece. Mal havia roadie nos palcos. Não foram poucas as vezes que vi uma lenda montar e desmontar o palco praticamente sozinha. O fato de ser branco e ter vindo de tão longe facilitou muito as coisas. Acabei ficando próximo de vários músicos. Eu sabia solos inteiros, riffs, nome de canções. No fundo, não eram muitos os que ligavam para eles. O brasileiro que conhecia a história deles era um conforto não esperado.

Falo sobre essa época porque estou ouvindo o disco do Ben Harper e Charlie Musselwhite chamado: Get Up! Ben Harper aproveita a fama já alcançada para se dar ao luxo de gravar o que bem entende. E divide um disco inteiro com o gaitista Charlie Musselwhite. Ele precisava disso? Não. Poderia muito bem fazer mais um disco solo e faturar com uma turnê pelo mundo. Só que ele fez diferente. Ele abriu espaço para um ídolo. A capa é bem clara. Ele e Charlie têm a mesma importância ali.

Em Get Up!, Ben Harper é de uma gentileza sem fim com Musselwhite. As músicas foram pensadas para que o gaitista tivesse o destaque que sempre mereceu. O espaço para os solos, as bases com presença da harmônica, até mesmo o material de release que antecedeu o lançamento do CD. Tudo foi pensado para honrar um dos primeiros “white bluesmen”. Um homem que vem tocando a sua gaita repleta de acordes e melodias por décadas. O resultado é um disco poderoso. A voz rasgada de Ben Harper se encaixa perfeitamente com a gaita levemente distorcida de Musselwhite.

Ao reverenciar Charlie Musselwhite, Ben Harper antecipou-se ao tempo. É fácil homenagear os ídolos quando eles estão mortos. Ele o fez antes. É uma gentileza bonita de se ver. E melhor ainda, de escutar. Se eu tivesse o endereço do motorista da van, mandava esse CD de presente, uma caixa de Herbalife e um bilhete escrito: Ben Harper liga para isso.

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Crédito ou débito?

Um resto de café gelado no fundo da xícara. Um pequeno biscoito amanteigado com a sorte de não ter sido devorado. Um garçom levemente ansioso com uma máquina na mão. Esse era o momento mais angustiante do almoço para o meu amigo Cesar Herszkowicz. Quando surgia o pavoroso enigma: é débito ou crédito? Em seguida, a mesa inteira passava por longos segundos de sofrimento. Uma espera que sempre terminava com o Cesinha dando a resposta errada. Para ele, o mundo carecia de uma nova palavra: “crébito”.

Penso nesse enigma. Na ausência do meio-termo. Você tem que optar pelo crédito ou débito. Só que é muito mais fácil entrar no débito do que ficar no crédito. A regra vale para conta bancária ou relacionamentos.

O gerente do banco liga para avisar que a sua conta entrou no vermelho. O caixa eletrônico faz questão de ressaltar que a taxa agora é mais pesada. O Serasa adentra nos seus sonhos. O débito nunca passa desapercebido. É como o primeiro fio de cabelo branco. Um exibido. O crédito é o esperado. O comum. Para que o gerente note a sua existência, você precisa de uma conta eikebatistiana. Caso contrário, você não fez mais do que a sua obrigação de estar no azul.

De um jeito ou de outro, estamos sempre devendo. Mesmo sem saber. São tantas as funções que algo ficará pendente no balanço final. O profissional exemplar, em alguma hora, vai descobrir que está em débito com a família. A mãe dedicada sente-se em débito com a profissão. O amigo entra em débito por não responder uma ligação. Nos múltiplos personagens que exercemos, há algum que ficou aquém do esperado. Que não bateu a meta. Ficamos a esperar um gerente personnalité que nunca surge. E assim,  entramos no cheque especial das relações.

Procuramos conforto na crença de que o montante de crédito vai amortizar a dívida. Sinto informar: não vai. Se você não cumpriu com as expectativas, não adianta discar 1. Se você deu um mole, não tente teclar 2. Pegue o seu extrato e confira. Aquela informação com letras pequeninas é o seu crédito. O asterisco de letras garrafais vermelhas é o seu débito.

Volto para a cena do almoço. Pego o biscoito amanteigado. O Cesinha estava certo. A vida deveria ter uma maquininha diferente da Cielo. Uma que permitisse a pergunta: é “crébito”, senhor?

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Uma volta.

Volto ao mesmo tema. Um ritual de despedida que, por mais que eu decore, sempre me surpreende. O momento da pergunta. Aquelas hora em que as malas estão na porta e as minhas filhas olham nos meus recantos mais escondidos. Porque elas sabem aonde eu desmancho. E dessa vez, elas perguntam em uma coreografia não ensaiada: volta bem?

No caminho para o aeroporto, penso nas voltas que sonhamos. Um sabor, um momento, o som de um alô, uma sensação. Todos nós guardamos, mesmo que secretamente, o desejo de que algo nos volte.

Uma sessão da tarde carregada da urgência de um Nescau com misto-quente. Uma manhã gelada em que ninguém imaginou que teria onda e você acreditou. Um abraço maternal naquela crise de dor de ouvido. Um cheiro distante de bronzeador na toalha de praia. Um sabor que ficou perdido na infância, mas que volta ao fechar os olhos. Aquele alívio que surgia no décimo segundo após o uso de Merthiolate. A mera visão do Zico ao entrar em campo. Uma chance de pedir desculpas ou de ter o que não foi vivido.

Minhas filhas querem que eu volte bem. Já falei sobre essa impossibilidade de resposta que me aflige. Resolvo pegar emprestado o olhar delas. Elas me querem de volta como aquele filme visto dezenas de vezes. Querem essa sensação circular. Essa certeza. A diferença é que elas admitem. E é um poder admirável esse. 

Podemos dizer que as crianças são românticas. Que são meras sonhadoras.  Cada dia mais, tendo a acreditar que elas são é corajosas. Porque conseguem colocar na mesa, mesmo que tateando as palavras, o sentimento mais profundo. Uma inveja, uma aflição, uma saudade que seja. Só que em alguma hora, essa coragem se vai. Até lá, aproveito. Sem revelar que guardo comigo uma volta impossível. A volta da irresponsabilidade. Da fala sem filtro, do não pensado. De ser que nem elas: criança novamente.

No maravilhoso mundo de Jorge.

A vida deveria ter a leveza das canções de Jorge Ben Jor. É a minha utopia particular. O meu desejo secreto. As coisas que imagino quando tudo em volta parece dar errado. Quando eu mesmo me sinto fora do tom. Nessas horas, eu recorro ao Ben. E sonho caminhar pelo seu universo.

Nada é capaz de me atingir. Porque eu estou vestido com as roupas, as armas e as lentes escuras de Jorge. E vejo tudo através dos seus olhos. Ogam toca pra Ogum que eu estou adentrando. Salve Jorge, Zé Pretinho, my brother Charles. Estou despido de acidez. Aqui, eu só quero torcer pela paz, pela alegria e pelas coisas úteis que se pode comprar com 10 cruzeiros.

Não tenho pretensão alguma de animar a festa. Quero apenas a honra de andar ao lado do macaco cientista, do urubu que toca flauta e violão e, claro, da internacional Deise, a mulher do homem que come raio laser. Quero a graça de falar voxê ao invés de você. Quero chamar o síndico Tim Maia para desorganizar a minha cabeça. Quero a cura para a hipocarioquice que me aflige quando sou chamado para tomar uma breja na padoca.

Vem comigo que o Crioulo Rei vai colocar a tristeza pra correr. Vem que a menina mulher da pele preta está cheia de malícia. Não aquela que mora na Pavuna e dança no simpático Pavunense. A outra, de olhos azuis e sorriso branco. Vem que são poucas as questões. Que plâncton é esse? Adivinha quem vai bater?

Licença, seu Umbabarauma. Cheguei para ver o que é corocondô. Para entender o zambá, o zambé, o zambi. Para soltar o sorriso “quinta série” que teima em aparecer ao ouvir que é para balançar a pema. Bebete vambora que eu preciso correr para a geral da minha nostalgia. Ouvi dizer que a falta é na entrada da área e o Galinho de Quintino é quem vai bater. E se não bater, tudo bem, porque é certo que vai rolar um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa.

Estou entre jatomóveis, bancários, ruas e avenidas. Não me aflijo. Sei que  conto com a proteção de Charles, Anjo 45. Sei que Jorge é da Capadócia e meus inimigos têm pés, mas não me alcançam. Tudo aqui é abençoado por Deus e bonito por natureza. Sinto-me embalado pelas canções que ninaram as minhas filhas. Os olhos fecham de leve ao ouvir “Santa Clara clareou..” e o pranto cessa com a simples menção de “Menina bonita não chora.”

Alô, alô Tia Léa, quebra essa. Diz que a minha nega não chama Teresa, mas que eu sou Flamengo. Peço com o requinte da gramática: deixe-me pular de faixa em faixa. Deixe-me ir para o meio da rua do mundo e ficar a girar.  Que maravilha é o mundo encantado de Jorge.

No céu, o Sol declara o seu amor pela Terra. Nesse mesmo céu, chove sem parar. Sigo esbarrando em figuras fantásticas. O namorado da viúva passou por aqui. Entorto o pescoço na busca do dote físico invejável dela. Pela letra, posso afirmar que aquele ali na frente é Roberto e seu dragão. Corto essa. Aceno para o meu irmão de cor e digo: Take it easy. Ele sorri e me aponta a chegada dos alquimistas. Vejo também Hermes Trismegisto e a sua tábua de esmeralda. Procuro por Xica da Silva, Zumbi, Saci e o príncipe Shah-Jahan.

Antes de sair dessas canções, preciso encontrar o emblemático “Homem da Gravata Florida.” Sai da minha frente que eu quero passar, digo para o vendedor de bananas. Alcanço um caminho de flores e amores. Achei o homem. Peço emprestado o seu relatório de harmonia de coisas belas. Ele atende ao meu pedido. Aquela gravata toca o meu pescoço e é verdade: ela me faz um homem simpático e feliz.

Sinto que a canção está perto do fim. Refaço o gesto de Jorge. Levanto o braço e grito para a banda do Zé Pretinho: em cima! E o meu universo encerra em simpatia.

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O meu King favorito.

Caminho pela beira da estrada 61. Acho difícil que ele vá aparecer. É gente demais em volta. O lugar do pacto virou um ponto turístico. Penso que se ele apareceu para o Ralph Macchio, o Karate Kid, por que deixaria de aparecer para mim? Preciso da benção do senhor de todos os blues. Na dúvida pelo ritual necessário, tento todos. Corto o dedo e deixo o sangue gotejar na encruzilhada. Acendo uma vela. Começo a tocar gaita na tentativa de evocar um trem. Nada. Já estava desistindo, quando eis que surge Robert Johnson em carne e osso. Ou quase isso. Eu:

-       Salve, salve meu São Crossroads. Estou prestes a cometer um sacrilégio, preciso do seu aval.

Ele está sentado numa cadeira, na mesma posição da sua foto imortal. Pernas cruzadas e chapéu. E me diz:

-       Sacrilégio? É comigo mesmo, malandragem. Manda a letra.

Estranho ele usar uma gíria atual, mas beleza. Sigo:

-       Seu Robert, sabe o que é, o B.B. King não é o meu King favorito. Não é por ele que eu luto. Tem solução?

Ele sorri:

-       Hmmmm, seu caso é grave, my son. Reza 15 “The Thrill is gone” e open um Jack Daniels pro Satan.  Com B.B. King não se mexe.

O Robert Johnson começou a falar que nem o Joel Santana. Evito comentar. Pergunto na mesma língua:

- Only isso?

Robert Johnson:

-       You didn’t need to cut o dedo. Quer um band-aid?

E some. Andei até Clarksdale à toa. Faço um curativo no dedo. Band-aid da Hello Kitty? Porra, Robert. Putz, esqueci de perguntar se ele não ficou puto com o Steve Vai duelando com o Karate Kid. Ele merecia algo melhor.

Depois de cantar o hino do condado de B.B. King 15 vezes, crio coragem. São três os Kings do blues. B.B. , Albert e Freddie. B.B.King é o dono do maior reino e do maior número de súditos. Nada mais merecido. Basta uma nota na sua guitarra para saber quem está tocando. Um estilo único que ajudou a fundamentar o blues no cenário mundial. Carismático, dono de uma voz que beira à perfeição, um showman como poucos. Meu primeiro contato com o Rei foi no disco “Live in Cook County Jail”. Escutava em looping. Está tudo ali. Todos os mandamentos para adentrar no reino do blues. Sem trombetas anunciando, apenas Lucille. B.B. King é e sempre será o maior dos Reis.

Albert King é o canhota de ouro da trinca. Trajando uma Flying V com as cordas invertidas, era capaz de dar aquelas notas que você sente na espinha. Para pisar no seu reino é preciso cantar o hino é “Born under a bad sign.” Mas para ser um súdito é preciso aprofundar-se no seu estilo. Harmoniza bem com o piso grudando de cerveja, shots de whisky e aquele clima “te considero para caralho” no fim da noite. Vi o Grande Rei Albert numa noite em 1992. Poderia ser um de seus cavaleiros, poderia lutar por ele, não fosse o próximo nome da lista.

Se eu tivesse que lutar por um desses Reis, lutaria por Freddie King. “Burglar” é a minha Excalibur, “Pack it up” é o meu hino. Freddie é o meu King favorito, por mais profano que seja dizer isso quando B.B.King está na disputa. Seu reino não é o maior, mas é onde eu me sinto melhor. Tecnicamente era um guitarrista imbatível. Ele e Buddy Guy são os meus favoritos nesse quesito. Buddy que poderia muito bem ter um King no seu nome. A voz é poderosa, daquelas que derrubam um exército. E desde sempre ele apontava para o futuro. “Pack it up” é um primor. É blues, rock, funk e tem as convenções mais intrincadas. É daquelas canções de calar a boca de quem acha que blues é simples.  O Rei Freddie fez de mim um súdito fiel e a ele serei devoto por todo sempre. Por “Getting Ready”, por “Texas Cannonball”, pelo luxo de ter Eric Clapton na guitarra base. Na minha subida aos céus, troco as harpas pela guitarra de Freddie. No inferno já deve ter uma banda de blues boa, só peço que ele faça os solos.

Conto com a clemência de B.B. e de Albert. Meu reino é de Freddie. Por ele, fui a uma encruzilhada na esperança da benção de Robert Johnson. Aliás, pedir benção para um sujeito que fez pacto com o diabo é pecado? Pouco importa. Preciso é entender que cacete ele fazia com um band-aid da Hello Kitty

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O outro lado da fita.

O apartamento é grande. Um belo exemplar da velha Copacabana. A vista é inexistente. Estou repleto de espaço e o que posso ver são os discos que me cercam. Há um quarto inteiro reservado só para eles e um solitário sofá. Um empreendimento imobiliário rapidamente acharia um nome em inglês para isso: vinyl room, audio experience room, listening room. Pouco me importava. As madames têm closet para sapatos? Os metrossexuais têm armários para cremes, pinça e secador? Meus pais tinham um quarto para os discos de vinil.

O leitor mais jovem, acostumado com música guardada em HD, talvez não entenda esse sentimento. Normal. Em 2009, um adolescente chamado Scott Campbell trocou o seu iPod por um Walkman. Um experimento de 1 semana. Ele demorou 3 dias para descobrir que a fita tinha um outro lado. O que nos leva a outro fato curioso: a expressão lado B não faz mais sentido. Scott reclamou da capacidade de armazenamento, do peso, da pouca praticidade do walkman, dos ruídos. Com toda razão. Não farei aqui um inocente brado “na minha época era melhor”. Sinto saudades de alguns rituais, da espera, do quarto de vinis. É disso que eu falo.

Voltar a fita K-7 na caneta para economizar pilha do Walkman era um ritual sagrado. Lembro que as locadoras de vídeo cobravam uma taxa extra para quem não entregasse o filme VHS rebobinado. Fita K-7, VHS, locadora de vídeo e rebobinar: tudo caiu em desuso. Mas era uma arte delicada que podia quebrar ou enroscar a fita. Coisa para se gabar no recreio. Como conseguir soprar uma bola dentro da outra de chiclete Ploc ou fazer a Torre Eiffel com o ioiô.

Mesmo cercado  de música, ainda me dava o trabalho de gravar os programas da rádio Fluminense, a Maldita. O Mississipi Dreams era um clássico. Você ficava ouvindo o programa e olhando para a fita. Rezando para dar tempo. Para driblar essa pirataria old school, as rádios colocavam uma vinheta no meio da música. Amaldiçoei cada uma delas, enquanto esperava a pilha ficar na temperatura certa no congelador.

O vinil envolvia uma série de outros rituais. Acertar a agulha entre uma faixa e outra era a técnica em disputa. Quando falo em espera, falo também desse intervalo. Do silêncio que envolvia o começo da primeira faixa de cada lado do disco. Do estalo, do ruído bom. Pronto. Já virei o coroa nostálgico.

Vinil podia ser lavado com água. Era coisa de macho. Não essa frescura do iPod que morre num simples mergulho na privada. Música dava um trabalho danado. Download era um amigo que voltava de viagem com muamba na mala. Era a minha mãe pai entrando em casa com as amostras invendáveis que chegavam das gravadoras. Era o inesperado. Discos não vazavam, havia um longo delay entre exterior e Brasil. É, a gente chamava de exterior.

Subindo a ladeira de volta ao meu apartamento. O trajeto para quarto de vinil era uma viagem pelo mundo da música. O corredor não tinha um espaço sequer nas paredes. Tudo estava coberto com cartazes de shows dirigidos pelo meu pai, eventos que a minha mãe trabalhou, fotos de família com cantores no meio. Não bastasse isso, meu vizinho de baixo era o Sérgio Cabral (o pai). E seu apartamento era outro templo do samba e da MPB. Eu cresci filho único cercado de sons por todos os lados. O tempo passava com o girar de um disco.

O forte do acervo era MPB. Mas o clima Copacabana de mistura não escapou do quarto. Se o bairro é famoso por reunir uma ampla fauna de travestis, jovens e velhinhas de cabelo violeta, o quarto tinha de tudo. Forró, bossa-nova, heavy metal, reggae, rock, ópera e o disco inesquecível: John Mayall & the Bluesbreakers featuring Eric Clapton. A partir da descoberta desse vinil, comecei a ouvir blues. Depois entrei pelo rock. E fui mergulhando cada vez mais fundo na estante até sair dela com uma gaita no bolso. Só mais velho, já com CDs, redescobri a música brasileira.

Um pedaço desse quarto voltou para mim. Falta coragem para adentrar nos vinis, falta espaço na casa, falta uma vitrola. Estou cercado pela facilidade da música digital. E confesso adorar essa tecnologia. Tenho um HD repleto e os links não páram de pipocar na minha tela. Só que tal como um Scott Campbell grisalho, tinha esquecido que na fita há outro lado. Virei em busca do meu passado. E encontrei essas lembranças gravadas.

Um gênio incompreendido.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar ouvindo Camaro Amarelo na calçada, mas estou aqui escrevendo mais uma coluna. Peço a sua compreensão, portanto. Estava tudo programado para falar sobre o disco que mudou a minha vida. Seria um texto mais doce, com PH neutro, repleto de recordações, com barulho de vitrola e cheiro de vinil. Vai ficar para a próxima. Não resisti a essa polêmica do PSY, Latino e Cauê Moura.

Gangnam Style tem 263 milhões de views no Youtube, enquanto escrevo esse texto. É o hit do sul-coreano Psy. Ok, você já sabe disso. Já sabe que é uma crítica social ao bairro dos milionários de Seoul. E que vem embalada em um clipe com uma coreografia inusitada e uma melodia absolutamente grudenta. Caso não saiba, uma perguntinha: como está a sua vida aí no Azerbaijão? O fato seria esse, mas eis que a Indústria Latino de Fabricação de Hits descobre a canção. E resolve fazer mais uma de suas versões.

“Despedida de solteiro” é o nome dessa preciosidade. Uma poesia de fazer inveja ao mais talentoso dos letristas. Aldir Blanc? Chico Buarque? Vinicius? Bob Dylan? Tolos que não chegam aos pés com tênis 12 molas do nosso verdadeiro poeta. “As minas todas nuas, as latinetes de topless e de bumbum pra lua.” Sinta a rima, sinta o fluir das palavras, sinta o dedo no pulso do povo. “Laçar, puxar, beijar. Pra galopar.” O que dizer sobre esse verso? É a dancinha sul-coreana traduzida em palavras que só um grande artista seria capaz de captar.

O talento que já havia sido exibido na versão do hit romeno “Dragostea Din Tei” ficou mais apurado. A técnica mais precisa. O tempo está jogando a favor de Latino. “Festa no Apê” resgatava a importância da palavra bundalelê e a necessidade de rimas nunca antes pensadas. Em outro verso, ele dizia com esmero “vou zoar o mulherio e a chapa vai esquentar”. É a linguagem da rua a serviço da melodia. Fazer o complicado é fácil, difícil é fazer o simples. Afinal, quem gostaria de ver a palavra “escafandrista” em uma letra que fala sobre futuros amantes? O amor, segundo Latino, é paixão, é libido, é orgia, é transgressão de conceitos.

O talento aqui é indomável. Um bom resumo dessa força chamada Latino pode ser explicada em outro hit adaptado: “Quem pode domar a força que entra nas suas veias? Fica quente, gruda na gente. Ferve, esquenta, incendeia.” É incontrolável. É um rio caudoloso em ideias, em sucessos e que, por isso mesmo, coleciona críticos. E o que é um crítico? Um sujeito incapaz de realizar algo próximo de tal genialidade. Um frustrado. Um coitado que nega o calor do brasileiro. Enquanto isso, a agenda de Latino está cheia, os programas de TV o querem, o cachê não pára de subir. Toma essa!

O que o insolente Cauê Moura não entendeu é que pega mal falar do que o Brasil canta. E Latino esqueceu as suas próprias palavras de minutos de sabedoria “tô nem aí, pode ficar com seu mundinho, que eu tô nem aí…” e respondeu ao desconhecido. Não deveria. Sua importância para a cultura nacional é quase maior do que tudo, só perde para o seu talento. Tudo o que é rejeitado e pisoteado é porque é sucesso, ele explicou em recente entrevista. Repararam na inversão da lógica? Na visão de 180 graus sobre a palavra? Ele sabe tudo, seus pobres de espírito.

Latino é a voz da laje, da esquina, da quebrada. Mas é também a voz que encanta a classe AAA em suas festinhas. Porque chique é estar conectado com as tendências que embalam o povão e pagar 400 reais para dançar funk. Não é mais calça da Gang, é Diesel. É fingir que você é do povo. “Eu tenho um amigo da classe C” é o novo must.

Você, senhor das certezas, fique tranquilo. Latino jamais fará uma versão de uma música do Led Zeppelin, do Radiohead, do Mumford & Sons, do Otis Redding, do que é sucesso apenas no seu mísero mundo. Não mesmo. O GPS está apontado para os top charts globais. É um estetoscópico a espera de um batimento mais acelerado. Um ultrassom pronto para exibir um novo rebento. Uma forte contração preparada para expelir um novo hit. E só você e o Cauê Moura não entendem. Vida longa para esse gênio da canção. Que ele seja sempre abençoado com essa verve poética, com esse som rico em melodias e essas letras que emocionam. Snif.

PS: 598 milhões de views até o momento. 

O método Sarkisiano.

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Você é um daqueles que acredita que é relativamente tranquilo chegar em uma ideia? Então, você nunca viu o Gustavo Sarkis trabalhando. Imagine aquela posição clássica do Chico Xavier psicografando. Agora, adicione o drama da chegada cambaleante daquela maratonista suíça nas Olímpiadas de 1984. O Sarkis criando é algo por aí. É sofrido, é duro, é emblemático. Para quem acredita em inspiração no ar, em flanar à espera da iluminação, em todas as bobagens do gênero, é um soco de realidade.

A direção de criação me deu a oportunidade de entender mais sobre os métodos que cada um tem para chegar em uma ideia. O que já era algo que eu adorava observar, hoje ficou mais fácil. Meter nome na ficha técnica sem fazer nada também é fácil, mas isso é assunto para outro texto. O fato é que escolhi falar do Sarkis porque ele é o cara mais disciplinado que já conheci trabalhando. Ressalto o trabalhando porque a caminho da academia, ele é facilmente seduzido por um almoço. Mesmo que seja no fatídico America. Outro motivo é que ele está longe, na distante California. E sabe como são homens, né? Sempre difícil elogiar quando o cara está logo ali pertinho.  Afinal, qualé, tá me estranhando? (cusparada no chão, coçada no saco). E, claro, ele é um redator brilhante.

Logo que eu cheguei na AlmapBBDO, percebi o sofrimento do Sarkis. Não resisti a isso e num ato típico de bullying, ao invés de roubar o lanche do coleguinha, resolvi tirar umas fotos escondidas dele trabalhando. Rapidamente, eu coletei um enorme acervo. Ele com a testa encostada na mesa, ele com a mão na cabeça em desespero, ele olhando para o monitor perdidamente, ele com as mãos em oração, ele atormentado. Um tempo depois, minha filha pegou o meu celular, viu as fotos e me perguntou: pai, quem é esse seu amigo tão triste? Era uma dor contagiante.

Gustavo Sarkis vem de uma escola de redatores focados. O fone no ouvido só toca música em caso de esquizofrenia. É um Peltor anti-ruído desses que os caras usam à beira de uma turbina de avião. Ele não usa MSN, iChat, joguinhos e, arrisco dizer, que nem vê putaria. Não há distração em seu mundo. É um pólo oposto do meu jeito de fazer. Coleciona pequenos pedaços de papéis com anotações aleatórias. Coisas quem nem são, mas que podem ser. Esse método rendia dezenas de páginas de ideias, toneladas de roteiros. Não, não são todos embaixo do mesmo conceito. Ele abre picadas e caminhos para todos os lados. É um peregrino faminto, fominha, incansável, obstinado em levar a maior e melhor pilha. Apresentar ideias ao lado dele é como fazer xixi ao lado do Kid Bengala. E ele adora repetir, tal qual Dulcídio Caldeira (também conhecido como Obsessídio Caldeira), que a ideia nasce do herpes.

Ele sempre vai até o limite para criar qualquer coisa. Lembro que na época do cachorro-peixe, havia um outro roteiro brilhante para a mesma campanha. Ele descartou no caminho por crer que bastava aquele. Não me lembro dele agindo como estrela, não me recordo dele destratando ninguém, nem de permitir que o seu o ego saísse fazendo besteira por aí.

Sarkis está entre os meus redatores favoritos por ser simples mesmo sendo tão complicado criando. Eu gostava de implicar dizendo que ele era baiano de condomínio. Cresceu jogando capoeira no carpete, enquanto as suas ideias eram nutridas com danoninho e lactobacilos vivos importados. Bobagem. Ele é bom porque faz muito. Porque gosta. E porque não se deixou enganar pelo falso glamour que nos cerca. É um cara que faz falta por perto (arroto e mais uma cusparada no chão). Nesse momento, deve ter um americano olhando o Gustavo criar. Acostumado com todos os clichês de uma nação alegre e sacolejante, ele pensa: e eu que achava que os brasileiros não sofriam por nada.

PS: o vídeo da maratonista suiça. Também em Los Angeles, só que em 1984.

2016: Imagina na Olimpíada.

Londres 2012 acabou naquele clima de Globo de Ouro trabalhado em muito dinheiro e com doses extras de Botox. E algumas perguntas ficaram no ar: como serão as festas de abertura e encerramento da Rio 2016? Que delegação musical brasileira pretendemos colocar para derrotar aquele final épico com o The Who? E a mais importante: se o Van Halen tocasse “Jump”, a Fabiana Murer pularia ou culparia o vento?

Sejamos sinceros, tirando alguns esportes, nossas chances de medalha não são das maiores. Artur Zanetti, por exemplo, tem 1,56. E a Sarah Menezes, 1, 54… Temos o judô, o vôlei, a prata do futebol e aquele iatismo popular e moleque jogado por sobrenomes bem brasileiros como Scheidt e Grael. O hipismo, um esporte praticado nas ruas de todo Brasil, teria alguma chance. Mas como bem lembrou um dos atletas (de duas patas, no caso), “a cultura do Brasil é voltada para o cachorro. Enquanto, na Europa todo mundo tem um cavalo.” Desculpa esfarrapada, infelizmente, não é uma modalidade.

Sendo assim, enquanto o governo diz que está tudo certo e os atletas ficam à margem e só serão lembrados na véspera, restam as festas. Aqui está a nossa grande chance de brilhar. E tenho uma proposta: se todo atleta tem que atingir um determinado índice para ter o direito de entrar nos Jogos Olímpicos, nada mais justo do que exigir o mesmo das atrações musicais. Para garantir o nosso êxito, sugiro algumas normas.  

Todo o estilo musical terminado em “ejo” está automaticamente impedido de participar da Rio 2016. Sertanejo, Pagonejo, Funknejo e Molejo, portanto, estão fora. Ritmos com a palavra “univesitário” agregada ao nome também ficam na porta. Seja ele sertanejo (para garantir), pagode ou pagode.

Letras dobradas no nome eliminam o atleta. Exemplos aleatórios: Gusttavo Lima e Claudia Leitte. O duplo “t” pode trazer sorte, dinheiro e bonança pela numerologia. Mas as regras aqui são outras. E duplicar a letra desnecessariamente é doping de mau gosto musical.

O índice de rimas, inspirado em trabalho do jornalista Gustavo Martins, definirá boa parte da festa. Após um longo estudo feito entre 2001 e 2005, o repórter concluiu que as rimas mais executadas no Brasil são: assim/mim, coração/paixão, dizer/você, fim/mim, esquecer/você e coração/solidão. Um bom critério, portanto, seria cortar sumariamente todo músico que já tenha abusado dessas rimas. Como o estudo terminou em 2005, gostaria de acrescentar a rima acreditar/amar. Para garantir que o Luan Santana não adentre o recinto.

Axé, funk e mamilos são assuntos polêmicos. O axé pode ser eliminado no critério rima. Ou no critério cidade natal de criação. Mas para garantir, sugiro a utilização do índice de repetição de vogais. Ou das dancinhas. Repetiu vogal demais? Fora. Tem uma coreografia? Fora. Isso derruba de uma só tacada o axé e o kuduro, ainda que eu acredite que até lá esse kuduro já esteja mole. Mesmo transgredindo diversos critérios aqui estabelecidos, o funk carioca dificilmente estará fora da festa. Porque a cidade natal pode sobrepor os direitos, nesse caso. Minha sugestão é a norma do proibidão: se tem palavrão, não entra. Regra careta, mas evita a possibilidade de ver a Tati Quebra-Barraco em HD.

Para finalizar, o Índice Criança Esperança. Que consiste em evitar que mais do que 6 artistas do programa fiquem reunidos na mesma noite nos Jogos Olímpicos. O coreógrafo daquilo ali também merece um corte. E o Índice Show para Excitar Gringos. Que nada mais é do que tomar cuidado para que o samba não seja mostrado como um show manjado de mulatas saculejantes.

Temos tudo para fazer a festa mais emocionante de todos os tempos. Basta fugir dos clichês e torcer para que o Michel Teló já esteja excursionando com o Beto Barbosa em 2016. Na dúvida, coloca o Jorge Ben Jor para tocar “A Tábua de Esmeralda” que não tem erro. E que o vento não nos atrapalhe.

 

 

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