Meu santo é forte para as pesquisas

Puxando na memória, relembro embates memoráveis em torno do assunto pesquisa. Em alguns, fui para quebrar e mirei no joelho mesmo. Feito um Jon Jones com os seus pisões. Em outros, fui mais dissimulado, esquivei como um Roy Jones Jr. e dei o golpe final quando menos se esperava. Claro, a lembrança é minha e posso sair sempre vitorioso. Agora, se eu for honesto, há escondido um momento em que saía da sala com os braços erguidos, após ter trucidado um animatic. Então, do alto da minha valentia, ouço a voz de um dos meus oponentes. Disse ele: o que você faria para melhorar o sistema de pesquisas, então? E eu respondi prontamente: abá, abé, abi.

A retrospectiva de 2014 passa pela perda de um raro grande cineasta brasileiro: Eduardo Coutinho. As circunstâncias trágicas da sua morte jogaram no noticiário aquele que se escondia por trás das câmeras para revelar a humanidade que ainda reside em nós. Pensei muito na injustiça do fato de Eduardo ter o fim da sua história revelada com tintas fortes. Logo ele, que mergulhava delicadamente na intimidade do outro e só voltava de lá com a permissão para contar o que encontrou. Não achei uma razão, um motivo. Descobri, no entanto, que estava a repetir o erro de que tanto reclamo. Pesquisas tendem a criar um senso comum em ambiente controlado. Eduardo Coutinho nos ensina algo diferente. Não há como prever e esperar explicações para tudo na vida. A complexidade humana não está no Big Data, está na vida. Ao abrirmos a cortina da censura social, ao atravessarmos as couraças mais profundas, desvendamos o óbvio: as pessoas simplesmente são.

Pensar em Eduardo Coutinho é andar pelo Edifício Master. É relembrar a cena do senhor cantando “My Way”, da moça que define Copacabana no dilema “ou as calçadas são estreitas ou tem gente demais”. Há nesse filme uma aula do universo Coutinho. A voz sem rosto que pergunta, a sinceridade com que as pessoas se expõem e mais importante: a verdade. Estamos dentro do apartamento e da vida daqueles personagens. É tudo tão autêntico que rimos e choramos em pequenos intervalos. Eduardo atinge no documentário o que o cinema brasileiro não consegue na ficção. É isso que nos emociona e nos conecta. Buscamos reminiscências de um familiar, de um vizinho, de nós mesmos. O cinema de Eduardo Coutinho não pede pipoca, muito menos azeite trufado. Ele pede a garganta seca, o olhar atencioso, a empatia.

Guardo o impacto de ver Santo Forte no cinema. O sincretismo, a fé, a alma escancarada. Dali carrego Thereza, uma personagem de uma riqueza difícil de acreditar. Fosse ficção, desconfiaríamos. Não sendo, é uma verdade que só nos resta aceitar. Em Babilônia 2000, as diferenças entre o Réveillon de ricos e pobres são exploradas até o ponto do incômodo. O morro abre as portas e divide o pouco que tem. O asfalto fala por interfone e oferece uma água. Eduardo caminha munido de pinça e, aos poucos, vai desencravando o que não pode ser revelado. No singelo Canções, o cenário é um banco e uma cortina escura, nem por isso o tom é inquisidor. As pessoas do cinema de Eduardo Coutinho surgem sem disfarces, sem a preocupação de interpretarem nada.

É desse universo que trago o que eu faria para melhorar as pesquisas. É preciso tirar as pessoas da sala do Focus Group e adentrar em suas casas. É necessário dar tempo para que elas fiquem à vontade. Observe primeiro. Aos poucos, a intimidade será criada. Sem perceber, o seu entrevistado estará sentado no chão, sem sapatos e apto a dizer o que não teria coragem em meio a um grupo de estranhos. O caminho para a verdade demanda espera e confiança. Não é algo que se atinge em dois dias. Inspirado por Eduardo Coutinho, joguei as luvas de boxe fora. O diálogo é a nossa única saída.

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5 pensamentos sobre “Meu santo é forte para as pesquisas

  1. camilacortes disse:

    O superficial criou cara de profundo ao ser alimentado pela falsa realidade de todos. Ótima reflexão.

  2. Kassu

    Primeiramente gostaria de agradecer.

    Quando entrei na faculdade, a maior fonte de inspiração era Olivetto, hoje mais maduro, dentro de agência e ainda na faculdade. Descobri seu trabalho, sua amizade com Medeiros, e claro o maior motivo de coloca-lo em primeiro lugar em minhas inspirações profissionais: seus textos.
    O que dizer sobre as palavras que salvam minhas semanas e me influenciam cada vez mais como redator e pessoa também.

    Foi quando estava desempregado e as dificuldades chegaram, prestes à ir para o telemarketing, não conseguia absolutamente nada, minha família estava preocupada, namorada saindo fora, e eu, só, sem perspectiva, portfólio, apenas com o sonho de ter pelo menos na minha vida alguma ideia que fizesse alguém dizer: ” puta, não tinha pensado nisso”.

    Aí conheci o seu blog e pensei comigo, vou sofrer, mas vou conseguir.
    Ser redator é o que eu mais quero, apesar de estar pegando o jeito. Nunca fui absolutamente bom com textos. Mas não sei desenhar, e amo propaganda, o que eu ia fazer. Vamos escrever,

    Depois de tanto suor e mãos calejadas, consegui entrar em uma agência, pequena, mas que realiza um trabalho bacana, e estão abrindo todas as portas possíveis para mim.
    Hoje sem a namorada ( só que mais feliz ), continuo escrevendo e melhorando tudo o que posso melhorar. Com seus textos na cabeça e Millôr no coração, sigo em frente, aprendendo, todos os dias.

    Washington Olivetto me apresentou a propaganda, e a sua dedicação pela profissão me faz amar esse loucura toda, cada vez mais. Hoje tenho orgulho de alguns amigos de área me chamarem de “mini-Kassu”. Apesar de estar longe de chegar ao nível dos seus textos.

    Bom, vou terminar da mesma forma que comecei, agradecendo.

    Grande abraço André, e não pare com esse blog.

    • andrekassu disse:

      Fernando,
      obrigado pelas palavras.
      Eu trabalhei ao lado de grandes criativos. O que eles têm em comum? Sentam e fazem.
      Que bom que você achou o seu espaço. Só não esqueça desse incômodo, dessa vontade que fez com que você insistisse.

      Grande abraço

      • Oi André,

        Faz um tempo que te escrevi um texto contando sobre o começo da minha trajetória como redator. Sou muito fã do seu trampo e do modo como você respeita o trabalho ( pelo menos nisso eu acredito). Isso me fazem acreditar que propaganda é muito mais que um texto reto.

        Não sei se já aconteceu contigo, mas têm dias que a pessoa passa por tanta coisa, que se pergunta sobre sua escolha de profissão. Essas situações no trabalho, onde “qualquer” um escreve um texto, ou “o que importa realmente é a arte”. Me tornaram inseguro, coisa inaceitável para o dia a dia.

        Tudo ficou de uma forma meio estranha. Se o clima do lugar não vai bem, me pego no site do Mohallem ou até mesmo nos seus textos, não como uma auto ajuda, mas como válvula de escape.

        De toda a forma, não sei se você viu o último comentário que deixei no seu blog. Não estava tão bem escrito como gostaria que estivesse, por isso eu o coloquei em um post antigo, para que pudesse ser uma coisa vista somente por você.
        Enfim, sem muita resenha gostaria de refazer a pergunta, e espero não estar sendo um estudante pé no saco rs.

        Em tempos difíceis, onde você busca motivação para não perder o gosto pelo oficio?

        Fica um grande abraço.

      • andrekassu disse:

        Fernando, essa é uma pergunta muito complexa. Eu passei por alguns momentos em que quase desisti da profissão. Na verdade, a gente tem uma tendência a olhar sempre para a pior parte. E ela surge mais rápida aos nossos olhos. Atitudes escrotas aparecem sempre mais do que as boas. Isso gera um desânimo para quem acredita que dá para fazer diferente. Acho que uma boa motivação é entender que isso é um ofício, apenas. Que não é uma arte, não é algo repleto de gênios. Há uma tendência a supervalorizar os nossos feitos. Desde um troféu a um elogio. Outro passo é saber que há mais coisas em volta e que elas podem nos manter equilibrados. Família, natação, escrever. E por último, acreditar que sempre podemos mudar para melhor. Não dá para ficar apenas reclamando. Tem que se movimentar.
        Entendo a angústia, mas ela pode ajudar a crescer. A danada da vida tem seus sobressaltos mesmo.
        Boa sorte aí.
        Abraços

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