Nada é mais emocionante do que a verdade

Houve um tempo em que a gente só mentia. Agora, acreditamos que é verdade. Com esse pensamento roubado de um grande amigo, pensei em caminhar pelos cases de ONGs que surgiram de todos os cantos. Seria um texto para explicar porque estamos pegando um atalho disfarçado de altruísmo para emocionar a platéia. Porque, convenhamos, é mais fácil tocar um jurado falando de mazelas do que explicando a funcionalidade do side-assist. Explicaria o conceito de relativização da verdade e, ao fim, deixaria exposto o nosso oportunismo. Até que fui impactado pela morte do B.B. King e me vi frente a uma encruzilhada. Entre a indignação e a inspiração, resolvi seguir o que me faz bem.

Em um tempo em que falar complicado parece sinal de inteligência, a guitarra de B.B. King é um farol de lucidez. Lucille emociona utilizando uma única nota. Só que essa nota vem carregada da história do garoto trabalhador dos campos de algodão no Missisipi que ousou conquistar o mundo. “Eu adoraria ser chique, mas ainda era o menino da roça que queria se livrar do cheiro de esterco”, disse ele sobre a sua não aparência de astro. Se existisse um pequeno manual de conduta para executivos modernos baseado nas frases de B.B. King, a lição dessa seria: nunca esqueça as suas origens.

“Quando as pessoas me elogiam, eu agadeço, mas volto para o quarto e pratico mais”. A carreira do autodidata B.B. King demorou para engrenar. Nascido em 1925, ele acreditava que o seu reconhecimento só começou a partir de 1968, quando foi aclamado em um show no Fillmore West. A consagração, porém, nunca lhe tirou a humildade. Vejam bem, ele era o ídolo do Eric Clapton, do Jimi Hendrix e continuava a crer que ainda tinha muito a aprender. B.B. King nos ensina a ter os pés no chão mesmo quando o mundo parece dizer que temos que fazer o caminho oposto.

Enquanto os cases indicam que estamos salvando o mundo, vale relembrar mais uma visão do Rei. “Eu não estou inventando nada que vá curar o câncer ou a distrofia muscular, mas gosto de pensar que o meu tempo e o meu talento estão à disposição para quando as pessoas precisam”. Música é uma troca, no final das contas. E nesse sentido, você só consegue se conectar com as pessoas quando é verdadeiro.

A guitarra de B.B. King nos fisga pela emoção. Relembro o momento em que a agulha tocou o vinil “Live in Cook County Jail”. Não conhecia aquele homem , mas era impossível negar aquela voz que não deixava espaço para mentiras. Ele sempre esteve inteiro no palco, mesmo fazendo uma média de 300 shows por ano. Escute “The Thrill is Gone” e descubra o que os teóricos, os especialistas tentam explicar em layers e mais layers. O emblemático “ser transparente com o consumidor” tem nos solos de B.B. King a sua melhor tradução.

Eu venho martelando na questão da felicidade no ambiente de trabalho. Penso no sorriso de B.B. King no palco e reforço que não estou enganado. “Serei um garoto até a morte”, disse ele certa vez. E foi. Em seus concertos, muitas vezes era possível escutar a sua gargalhada. Quando era confrontado com o fato do Blues ser uma música triste, ele dizia: “Tem tristeza em qualquer estilo de música, se é isso que você quer ouvir”. É uma aula fundamental sobre foco. Sobre estar atento ao que acontece de bom a nossa volta.

Volto para a encruzilhada e agradeço ao B.B. King por guiar as minhas emoções para o que vale a pena. Se tivesse que escrever esse texto de novo, começaria diferente. Houve um tempo em que as pessoas fizeram de um menino do Mississipi, o seu rei. Só que o menino nunca acreditou que esse era o seu papel. E, talvez, por isso tenha feito um reinado tão bonito.

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5 pensamentos sobre “Nada é mais emocionante do que a verdade

  1. Zé Armando disse:

    B.B. King parece ter tido em vida um pedacinho de São Francisco de Assis. Se a gente quiser ouvir suas músicas com a alegria que o santo pregava, basta ouvir como o menino falou acerca de música triste dos campos de algodão.

  2. Felipe Cruz disse:

    André, sou fã dos seus textos e mais ainda dos seus trabalhos. Todos, sem exceção. Inclusive os de SOS Mata Atlantica, Greenpeace e Casa do Zezinho que você fez. Parabéns.

    • andrekassu disse:

      Felipe,
      obrigado pelo elogio disfarçado. E ainda mais por ter tocado nesse ponto.
      Se você reparar, eu escrevi dizendo “a gente”, “somos”, “estamos”. Logo, não me isento do que já fiz, não.
      SOS Mata Atlântica foi, inclusive, o meu primeiro Leão. Não era afiliado da Fundação e ganhar prêmio foi toda a minha ajuda.
      O mesmo vale para Greenpeace. Nunca ajudei para valer nenhuma das duas instituições.
      Casa do Zezinho foi um pouco diferente, mas não cabe agora explicar. Até porque eu posso cair no mesmo erro de relativizar a minha verdade.

      Só acho que o ser humano pode e deve evoluir.
      Questionar o que você mesmo fez no passado é, na minha visão, permitido e válido. E hoje tenho um pensamento diferente.
      Talvez até por já ter participado do circo todo, posso falar sobre o tal oportunismo.
      A pressão das redes é para que as agências pontuem nos Festivais e isso ajuda a impactar nos números das ações.
      Para chegar a tais números, precisamos fazer mais e mais. A pressão passa para a equipe e aí vira um grande vale-tudo.

      Pode soar contraditório, mas abri uma agência até para não ter que fazer parte desse jogo mais.
      Se quiser expor o seu lado, segue o meu email: akassu@gmail.com

      Grande abraço.

  3. Clovis La Pastina disse:

    A sensibilidade é a tecla SAP da alma. E eu me recuso a desistir de gente.
    Gente tem jeito. Como disse a campanha da Coca-Cola: “os bons são maioria”.
    B. B. King me emociona. Um bom texto me encanta. O bom humor do cara
    que coloca o Trident no retrovisor me contagia. Eu ando de vidro aberto.
    Eu falo. Eu olho nos olhos. Eu realizo trocas. Eu vivo a vida e o meu dia.
    E o seu texto, lúcido e sensível, me deixou um pouco mais feliz hoje. Valeu!

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