O ano acabou

Foto: Marcão Medeiros

Vai, pega uma cerveja gelada, que o ano acabou. Não teve samba na rua, não teve euforia libertina, ficou uma demanda reprimida, e o churrasco, até isso derrapou. O ano acabou. 

Vai, abre essa cerveja gelada, pega aquele copo americano riscado, risca o calendário, olha pra frente, o tempo parece nublado, mas não tem jeito. Foguete não dá ré, mas as ideias retrocedem. Bora puxar esse bonde rumo ao que vem. O ano acabou, e quem não está acabado?

Vai, serve, escuta o barulhinho, enche o copo devagar como uma sexta que nunca chega, como os minutos na sala de espera. Reflete o que passou, já enxugou a mágoa, mas não passou pano. Torce. Torce para entrar molhado de água salgada. Torce, que o ano acabou. 

Vai, é hora de aproveitar aquele primeiro gole. Preparar um passeio pelas lembranças boas que sobraram. Rodar pelos caminhos que valeram. Vai, que é vacina, não é cloroquina. Como escutei outro dia, estamos com os dedos roxos de carregar as sacolas pesadas, mas ninguém solta até chegar em casa. O ano acabou, mas a gente segue daqui.

Vai, encosta o copo na mesa, passa a mão pela marca do líquido que ficou na madeira, esfrega o dedo fazendo com ele um novo desenho, não pensa demais. Já são quase dois anos duríssimos e com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Choram Marias e Clarices. A gente sonha viver um momento histórico, mas ninguém avisa que a gente não escolhe o momento. Você pensou que seria incrível estar na Queda do Muro, no sítio dos Novos Baianos, no estádio com um Pelé de 17 anos a desfilar lençóis, e o destino veio com pandemia. É sacanagem. O ano acabou. 

Vai, vamos puxar algumas lembranças boas daqui, pois chorando eu vi a mocidade perdida. Não quer ir? Eu vou. Deixa que eu puxo as primeiras que me vêm. Depois é a sua vez, combinado? Gilberto Gil na cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras trouxe aquele efeito solar que só alguns fatos e pessoas são capazes de produzir. Não pela Academia, mas pelo que Gil representa na cultura brasileira, com sua erudição popular que transcende o saber acadêmico porque Deus lhe deu régua, compasso e poesia. Teve gente que chiou um chiado de remédio efervescente. Fez barulho e sumiu na água amarga. É gente sem sim, sem som, sem sal. Gil é refazenda, refavela, refestança. Gil é Drão, de um amor que é como um grão que morre e nasce trigo, vive e morre pão. E a fé tá num pedaço de pão, como ele cantou em “Andar com Fé”. Gil é o canto de Caetano a nos lembrar que só os sons e os dons geniais nos salvarão das trevas e nada mais. O ano acabou.

Vai, não vai, sigo eu. Sorve a cerveja, então. Entrei o ano lendo “Torto Arado” e, como tantos outros leitores, ainda sou capaz de sentir a aflição da junção das palavras faca e língua. Na sequência, pedi para um amigo uma lista de livros de autores brasileiros. Pedir listas para amigos abre muitas portas, e aqui não foi diferente. Através dele li “O Avesso da Pele”, do Jeferson Tenório; “Solução de Dois Estados”, do Michel Laub; “Marrom e Amarelo”, do Paulo Scott; “Enterre os Seus Mortos”, da Ana Paula Maia, e “Suíte Tóquio”, da Giovana Madalosso. Tem coisa boa pra valer sendo escrita no Brasil. Não o bastante, ainda teve o retorno do Marçal Aquino, com capa lindíssima do Marcelo Tolentino. Marçal sabe dos paranauês todos. Outro que sabe demais é o professor Luiz Antonio Simas, que soltou um livraço sobre o Maracanã. E teve o Chico Buarque em contos. A arte literária brasileira contemporânea fará ainda mais sentido nos anos seguintes. O ano acabou. 

Vai não, agora engatei. Lembrei do xadrez com capoeira do amigo Felipe Silva. Vida longa à Gana. Salve, Ary! Salve, simpatia! Boa noite, boa noite, bom dia. Salve, Jorge! Salve, Mano Brown! Salve, Mano a Mano! O melhor conteúdo do ano vem cercado de muita gente boa fazendo acontecer. Semayat Oliveira, Jaque de Paula, Renata Hilario (obrigado por mexer no texto), Eliane Dias, Kaire Jorge, Jef Delgado. A curiosidade que sobra no Mano e a genuína vontade de ouvir criaram um lugar especial demais para ficar em 2021. O cara está ali entregue para aprender, trocar, inspirar, espalhar conhecimento. “O doutor era gangueiro” foi um dos risos mais soltos que deixei no ano. Os chiadores chiam, e o Mano Brown sabe mais que a Academia da Porra Toda. O Coruja versando em quatro minutos, também. O ano acabou.

Vai, vai, malandra, a Anitta tomou conta do mundo. A Rayssa Leal tomou conta das pistas. Ficamos com aquela sensação de inveja da confraternização entre as atletas do skate. Em um mercado que puxa para baixo, é bom ver quem joga para cima. No dia em que a Rayssa estava na competição, cortei a mão num pote de vidro. Esperei tudo acabar para ir a um posto de saúde local e levar pontos. O médico esqueceu uma lasca grande de vidro dentro da minha mão, tive que fazer uma cirurgia depois, mas é outra história. A fadinha nos salvou momentaneamente; a vacina, também. A skatista filipina encheu o coração. O ano acabou.

Vai, voa para a Lua, disse para a minha sogra que partiu no ano. Vai, voa para o céu dos cães, o céu para onde eu quero ir, disse para o meu cão que partiu também. O momento em que a dor vira uma saudade quente é uma das chaves que a gente deveria ter num molho no bolso, para lembrar sobre a importância dos ciclos da vida. O ano acabou.

Vai, abre outra cerveja, beba com moderação, viva com menos moderação. Aquela sensação de que as coisas estavam sob controle era uma ilusão. Bastou um vírus. Os profetas do novo normal faturaram alto? O Ailton Krenak tem uma resposta para eles, a pandemia não vem para nos ensinar nada. A fome ronda o país. O ano acabou.

Vai, que eu vou na sequência. No nosso mundinho, teve o documentário dos Beatles. “Get Back”, “Don’t Let me Down”, “Let it Be” e um Paul McCartney exalando brilho. Não se ouve um “genial” no estúdio. Nenhum. Já ouvi tanto “genial” gasto à toa, mas chega desse papo. Como diria Jorge Ben: em cima. Como canta um samba: mete o pé, vai na fé. O ano acabou. 

Vai.

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