A guerra não acabou.

Primeira coluna, desespero, tensão, vou apelar para uma metáfora. Lee Marvin e Toshiro Mifune estão isolados em uma pequena ilha no Pacífico durante a Segunda Guerra. Eles mal sabem o que acontece no mundo lá fora e travam um EUA x Japão particular. “Inferno no Pacífico” é o nome dessa preciosidade. O fato é que eu estava em Londres, entrei numa loja chamada Rough Trade e esse filme me veio à cabeça na hora. (Cacete, primeira coluna, usei metáfora e dei uma referência de viagem.) A Rough Trade é um templo da música independente. Começou como uma gravadora, virou loja, ganhou outro endereço e é daqueles lugares para passar horas e horas fuçando. Cruzei a porta e na mesma hora os vendedores me pareceram Lee Marvins e Toshiro Mifunes. Deu uma vontade de gritar: ei, seus loucos, a guerra acabou. Vocês estão aqui lutando, e os jovens estão lá fora fazendo download. Desistam. Ergam o White Album e peçam penico.

Talvez eu ande impactado pelo vídeo da loja ambulante da Third Man Records do multi-homem Jack White. O vídeo abre com a frase: 97% dos jovens do ensino médio nunca pisaram numa loja de CDs. Imagino o Jack White esquecido no Pacífico pregando uma corda de aço num tronco de coqueiro para fazer uma guitarra e lutar.

Na Rough Trade, eu voltei a entender o real espírito de uma loja de CDs. Quem já foi a uma boa loja do ramo sabe que você pode ser humilhado a qualquer momento. Os vendedores contam com a sua estupidez. Sabe a lojinha do Alta Fidelidade? Então, é aquilo piorado. Basta uma pergunta equivocada para que o cone da vergonha despenque do teto direto na sua cabeça. E na Rough Trade, eu senti isso. Aqueles olhares de canto me diziam: ele vai fazer uma pergunta imbecil. Mal sabiam eles que eu era um veterano de combate, repleto de cicatrizes.

Em tempos distantes, a minha Rough Trade particular era a Satisfaction Discos. E no papel de Mifune-Marvin, estava o Renato Arias. Foi naquele cantinho da guerrilha de Copacabana que eu ouvi Stevie Ray Vaughan pela primeira vez. E fiz a fatídica pergunta: quem é? Com ar de desdém e um ingresso de um show do filho ilustre de Austin preso em um quadro de cortiça, veio a resposta. E mais do que isso, uma aula. Na época, não havia o link “pessoas que compraram isso, também compraram isso”. O Renato era essa opção.

Levemente ferido, voltei pra casa e estudei. E como a gente fazia isso sem internet? Ligando para amigos, comprando revistas importadas a preço de iPad, pedindo livros pelo correio. Assim, eu comprei uma enciclopédia de blues. Who’s who. Finalmente, eu tinha uma arma poderosa. Voltei para a loja com passos firmes. E vários nomes de artistas que eu imaginava serem obscuros. Munido de informação, engatilhei o trabuco e bang! Tomei um tiro do Renato: Sonny Boy Williamson com Yardbirds, já ouviu? Recolhi as armas e aceitei a condição de soldado raso.

Musselwhite? Conheço, sim, senhor! James Cotton? Conheço, sim, senhor! Big Mama Thornton? Não conheço, não, senhor! E pagava flexões sobre as bancadas da loja para tomar vergonha na cara e aprender. A Satisfaction virou uma guerra particular. Quase tudo do universo blues e rock foi descoberto ali. E talvez o Renato não saiba, mas ele foi fundamental para eu virar um gaitista de blues. Entrei para uma banda, a Overblues, viajei para Chicago, vi dezenas de mestres, tive aula com o Sugar Blue (o gaitista de Miss You dos Stones). Até que, aos olhos do Renato, deixei de ser um reles soldado.

Esse tempo de Satisfaction criou uma casca tamanha que, anos depois, ela me blindou na Rough Trade. Não falei nenhuma idiotice, não puxei arma alguma. Caminhei firme e simplesmente perguntei: alguma indicação? O Mifune do balcão sorriu. Nada como uma rendição.

PS: A Satisfaction continua na Rua Francisco Sá, 95 – loja K -Copacabana. Longa vida ao guerreiro Renato.

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