Os Maias estavam certos.

Dia 43.

Olho para trás e dou o último adeus. O cenário é desolador. Uma multidão caminha pelas ruas em uma coreografia ensaiada. Ouço um coral de buzinas de mugido e vislumbro chapéus de caubói atirados ao céu. Mulheres são enlaçadas por cordas nas ruas. Elas sorriem, eu não. O contágio era muito mais rápido do que se pensava.

Dia 2.

Ouço a tal música pela primeira vez. O contador de views do YouTube gira em uma velocidade impressionante. Como não percebi de imediato? Diferente de Ilariê, não preciso tocar a canção em reverso para captar vossa mensagem. “Assim você me mata. Ai, se eu te pego”. Era óbvio demais.

Dia 7.

Amigos próximos se comportam de maneira diferente. Muitos já reproduzem a tal dancinha. Penso em George Romero. Nem ele seria capaz de imaginar algo tão devastador. Sem mordida, arranhões, nem sangue. O contágio é pela internet, pela rádio. Mas tal qual mortos vivos, a fome é de cérebro.

Dia 9.

Penso no Kaoma. A humanidade sobreviveu a eles. Eu me encho de esperança. “Chorando se foi quem um dia só me fez chorar.” Eles se foram.

Dia 12.

Há registros de contágio na Grécia, Polônia, Alemanha. Compro mantimentos, encho 64GB de música e invisto uma fortuna em um fone com noise reduction. Por agora, estou salvo. Penso aliviado enquanto como pedaços de Miojo cru.

Dia 18.

Portugal se rendeu ao vírus. Mesmo depilado, Cristiano Ronaldo não passou liso. Na Espanha, entre uma ajeitada de cueca e outra, Nadal canta para Djokovic: assim você me mata. Djokovic fica na dúvida se é para ele ou para a cueca, mas como um mestre da imitação, foi pego em segundos.

Dia 22.

O meu prédio inteiro canta. Vizinhos dançam pelas escadas. Vejo Lobão na TV sendo carregado pela multidão, que grita: herege! Ele estava certo: o rock errou. Como um Profeta Gentileza do mundo bizarro, Lobão grita: ódio gera ódio, enquanto é engolido pela horda.

Dia 27.

Abandono a casa. No The Walking Dead, eles ensinam que o melhor disfarce é uma cobertura de vísceras dos zumbis? Eu decoro a dança e me visto de xadrez.

Dia 29.

Furto uma roupa de aqualouco. Não sabia que vendiam essas coisas. Acabo me infiltrando em um grupo de fãs do Restart e consigo um refúgio.

Dia 31.

Fui expulso do refúgio por usar cueca cinza. Explico que sou daltônico, não adianta. Grito como Charlton Heston ao ver a Estátua da Liberdade. Teló está em todas as capas. O mundo não será mais o mesmo.

Dia 37.

Invadi um pesque e pague em busca de comida. Péssima ideia. Noto um jogo de dardos com o Rafinha Bastos de alvo. Sou expulso por antropólogos que gritam: você não entende o Brasil. Aceite a verdade.

Dia 40.

Entro em uma encruzilhada. Vejo o Robert Johnson cantando Ai se eu te pego, em inglês. O diabo com uma leve escova progressiva sorri e me fala: eles pagam mais. Valha-me meu São Muddy Waters. Os Maias estavam certos.

Dia 42.

Há rumores de que existe um bunker Lúcio Ribeiro. Preciso decorar a senha: as 5 melhores bandas do mundo desse mês.

Dia 44.

Não há bunker, não há nada. Apenas, aquela música saindo de toda e qualquer caixa de som. Ok, pode me pegar, Michel Teló! Tento dançar e cantar. Quero ser um deles. Tudo em vão. Comemoro o fato de ser imune ao vírus até que me vejo refletido em um chifre cromado na frente de uma picape. Entro em desespero. Estou vesgo. Virei um meteoro da paixão.

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