O velho, o menino, o burro e o mercado.

Diz um certo conto de La Fontaine, que você já deve ter escutado, que um velho e um menino seguiam por uma estradinha montados num burro. Até que, no caminho, alguém falou:
– Que crueldade! Assim, eles matam o burro!
O velho, assustado com os comentários, pediu para o menino descer. Até que outras pessoas comentaram:
─ Que velho maldoso. Deixar o pobre menino a pé!
O velho mais uma vez se impressionou com os comentários e desceu do burro. E colocou o menino para montar. E novamente comentaram:
─ Que menino desalmado. Cheio de energia montado no burro, enquanto o coitado do velho caminha.
Até que os dois resolveram carregar o burro nas costas. E mais uma vez ouviram risadas pelo caminho. E um comentário:
– Mas olha só, como são burros.

Infelizmente, o mercado publicitário funciona muito parecido com este conto. Não é uma metáfora simplória, é constatação. O cara é bom em filme? Ah, mas ele não manja nada de web. Ele é bom em web? Putz, ele não saca nada de mídia tradicional. Mas ele é bom em títulos, diria um defensor. E um passante na beira da estrada diria que ele nunca fez uma ação sequer. Ele está pensando em integrated, agora. Tá, mas piorou muito nos roteiros. Ele é bom em spots. Ah, vá! Quem liga para spots?

Ele é premiado? É, mas só em prêmios nacionais. Ele ganhou Cannes? Ganhou, mas não tem nada do dia a dia. Ele resolve o dia a dia bem pra caramba. Resolve, mas não ganha nada em premiação internacional. Ele é bom em releases. Bem, aí não tem perdão mesmo.

Para piorar, existem os comentários anônimos que me enchem de vergonha. Agora mesmo, deve ter um aí embaixo dizendo: que bosta de texto. Mas penso no Chico Buarque comentando sobre os anônimos e rindo. E vejo que ele está certo.

Moral da história? Trabalhe dignamente, meu caro. Cumprimente os colegas quando você achar que o trabalho é bom de verdade e não por network. Na beira da estrada, não falta gente falando. Escute menos e faça o seu. Acredite: no mercado, é melhor ser velho, menino e até mesmo burro.

Publicado no site do CCSP. 07/2011.


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2 pensamentos sobre “O velho, o menino, o burro e o mercado.

  1. Bruno Pereira disse:

    Me lembrou duas frases suas…

    “Questão sem ação só gera acomodação.”
    “Quantidade gera qualidade.”

    A gente precisa parar de achar, e começar a encontrar.

    Este blog é uma aula. Não deixe a peteca cair não. Quando der, posta. =)

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