De repente, California

O mercado internacional abriu as portas para os criativos brasileiros. O que era um sonho distante virou uma possibilidade real. A cada Festival de Cannes que se encerra, observamos uma debandada de redatores e diretores de arte para o estrangeiro. A cada turma da Cuca ou da Miami Ad School formada, vemos meninos e meninas dando um salto triplo em direção à gringolândia. É preocupante. Se hoje temos problemas para reter talentos, em um futuro não muito distante teremos dificuldades em encontrá-los. Porém, não é disso que venho a escrever. Meu tema é mais egoísta. É sobre um amigo que se vai sem planos.

Em um mercado cercado por disputas e vaidades, nem sempre é fácil encontrar um amigo de verdade. Teoricamente, estamos todos a brigar por clientes, júris, prêmios, aplausos. Quando trabalhei na F/Nazca S&S em 2001, a equipe era pequena. Há, inclusive, um anúncio com uma fila de toda a criação que soa inacreditável nos dias de hoje. Eram tempos diferentes. A carga de trabalho era pesada, o clima não. E naquelas madrugadas com a disputa da pizza da Camelo contra a pizza do Brás, grandes amizades foram forjadas. Quis a ironia do destino que de tanto chamar o Edu Lima de o último romântico, ele tenha escolhido outra canção do Lulu Santos. E agora, vai viver a vida sobre as ondas.

Diz a mitologia que Eduardo não sorri. Até entrar na F/Nazca, eu desconhecia a cara mal-humorada dele. Bastava conhecer o trabalho. Por 8 anos, tive o privilégio de descobrir um pouco do método, de assistir de camarote o nascimento de campanhas famosas, de estar lado a lado com o Fabio e com o Edu. Ouvi o “são três voltas de vantagem no marido corno” saindo direto do forno, vi performances memoráveis em reuniões (em especial, uma dança de ladinho), entendi um pouco do ímpeto de Sr. Fedricksen. E aqui revelo: Edu é o Milli Vanilli da raiva. É tudo fake.

Guardo comigo histórias impublicáveis e outras que viraram lenda urbana. Dentre elas, o dia em que ele quebrou com pisões um cronômetro que sempre despertava. Detalhe que o apetrecho era do Fabio, que observou a cena incrédulo. Da dupla com o Lincoln, levo todo o folclore pernambritânico e a mítica frase: me diga o que eu estou pensando, Edu. Da sua mesa, mantenho preservada a visão da maior montanha de lixo já acumulada em uma agência. E sobre todas as coisas, carrego a amizade.

Edu nunca teve frescura lá em casa. Senta no chão, fala besteira, dispensa pose. Dia desses, encontrei uma foto dele recostado em uma poltroninha vermelha da minha filha. É um bom resumo. Os Limas são uma extensão fundamental para mim, para a minha mulher, para as pequenas. E sem eles por perto, os jantares da sexta perdem uma certa graça.

Sei que deveria falar sobre o mercado aqui, mas não consigo fazer essa separação. Grandes profissionais só me interessam quando são grandes pessoas. Ao exercer uma liderança silenciosa, Edu me ensinou que esses mundos podiam se encontrar. Por 2 anos, eu o Marcão Monteiro fingimos que recebíamos revistas gratuitas para provocar o chefe que nada ganhava. O bullying superava a hierarquia.

A natação é outro espaço sagrado para ele. Nesse último ano, adentrei à sua turma de nadadores. Na piscina, ele não é o Edu premiado, é só mais um a ser provocado. A ida para a California desfalca a raia centenária e encerra os lamúrios irritados entre uma série e outra. Pobres técnicos americanos: mal sabem o que vem pela frente.

Contrariando a regra subliminar de que não devemos fazer elogios públicos, aqui o faço. Edu é um grande amigo que parte. Um profissional que fez do trabalho o seu melhor release. Quando saí da F/Nazca, ele evitou se despedir. Retribuo a gentileza. Até mais ver, seu velho rabugento. Que os balões de gás amarrados na sua casa levem os Limas para lugares incríveis. E muito obrigado por tudo.

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9 pensamentos sobre “De repente, California

  1. Claudia Machado disse:

    Tpm ta foda. Até chorei. Pra onde ele vai? Chuck vacilou.

  2. (empolgante conhecer um pouquinho da vida real dos ídolos)

  3. Contrariando a regra subliminar de que não devemos fazer elogios públicos, cumpre registrar que o post-homenagem ficou bonito pra caramba. Abração.

  4. guilherme lemos disse:

    Kassu, meu comentário é sobre o primeiro parágrafo, até a penúltima linha, o de reter ou segurar talentos. Moro em SP há 5 anos, sou redator de uma grande agência. Não fiz Miami, não me inscrevi para Young, não tive “experiência internacional” e admito para você que tive sorte de conseguir mostrar pasta e ter pessoas que acreditaram em mim, mesmo sem ter nenhuma badalação que se exige hoje.

    Quando vim à SP fazer a minha via-crúcis, não conhecia ninguém e escutei um tanto de “se não fez Miami vai ser difícil”, “Seu trabalho é bom, mas não tem nenhum Case” e o melhor comentário de todos: “cara, eu preciso de alguém como vc, mas eles preferem trazer alunos da Miami que têm uma pasta moderna, cheio de case e com cara de job gringo. Impressiona o DC. O foda é que a maioria não segura um título, mas aí eles trocam, até achar um que segura”.

    Não sou contra os cursos, mas eles custam caro e a exigência de só contratar quem estudou nessas escolas, faz com que a profissão fique elitizada. Trabalhei com vários ex-alunos, muitos ótimos, outros que acham que só têm que pegar job que vai dar leão (uma vez um me falou assim, quando não conseguia resolver uma campanha de banner: o problema é que na Miami a gente só cria para prêmio. Quantos prêmios vc tem cara-pálida? Nenhum). Teve um outro que falou que sou “um vencedor”, só porque consegui trabalhar aqui em SP, sem ter estudado na Miami.

    Vendo pelo lado bom, vai ver essa dificuldade de segurar a garotada dos cursos, faça com que as grandes agências voltem a olhar para talentos que chegam com menos barulho, que não têm case, “experiência internacional” e nem indicação de professor.

    Me desculpe pelo comentário gigante. Mas como você é uma boa pessoa, sei que não vai colocar o meu nome na boca do sapo por isso.

    Valeu.

    • Larissa Amoras disse:

      Oi, Guilherme!
      Eu tô fazendo uma pesquisa sobre isso. Você é a segunda pessoa de quem eu ouço sobre essa elitização da profissão. Se você tivesse um tempinho de bater um papo sobre isso, te agradeceria muito!
      Abs,

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