Acendam a fogueira.

A definição foi cunhada pelo Kassin: a “Simonalização” de Ed Motta. Não precisei ler o texto para entender o que significava. Para compartilhar a mesma sensação. De uns tempos para cá, pega mal dizer que você gosta do Ed Motta. Os infelizes comentários no Facebook criaram um enorme fosso entre o artista e o público. Nesse fosso, estão as duras palavras de Ed, o seu jeitão que soa arrogante, as divagações sobre vinho repletas de notas de frutas, as suas certezas. Pouco interessa o som que ele está fazendo.

Volto para o meio dos anos 90. Naquela época, dei uma festa dessas que os vizinhos consideram a possibilidade de empalamento. Lá pelas tantas, tocou “Beat it” do Michael Jackson. Rolou um mal estar. Um climão. O albino Michael já tinha virado aquela mistura de Diana Ross com boneca Monster High. Estava envolto em diversas acusações de pedofilia. Ao escolher aquela canção, eu me tornei um herege. Um cúmplice de suas bizarrices. Gostar de Michael Jackson não era mais um comportamento aceitável. Tentei argumentar que Off the Wall e Thriller eram verdadeiras obras-primas. Em vão. Fui para fogueira.

A morte de Michael redimiu o ídolo. Não dissipou todas as camadas de suspeitas, não exterminou suas maluquices. Apenas, jogou uma merecida luz sobre a sua importância como músico, cantor e artista. Ele voltou a ser o Rei do Pop. Hoje, é cool gostar do pequeno Jackson. Escuto a brilhante versão demo de Billie Jean no meu fone, pensando na massa que me queimou naquela festa. Eu estava certo, seus ingratos.

O primeiro show que eu consegui entrar sem pedir a ajuda da minha mãe foi do Ed Motta. O até então sobrinho do Tim Maia estava estourado com “Manuel”. O mar estava flat, nada para fazer, eu de bobeira em casa. E apareceu a promoção na rádio: quem trouxer um disco de funk até a esquina da Joaquim Nabuco com Raul Pompéia, ganha 2 ingressos para o show do Ed. Eram menos de 500 metros. Peguei um vinil do George Clinton e corri para lá. Era a minha independência. Um show que a minha mãe não abriu a catraca.

Entrei no Teatro Ipanema sem saber o que esperar. Saí de lá impressionado. Lembro dele ter encerrado esse show com uma versão de Smoke on the Water, onde o riff era todo vocal. Logo depois, vi um show no Alternativa Skate Rock (esse com ingresso da mamãe). Estava configurado: Ed Motta era um cara para prestar atenção.

Guardo dele grandes momentos. Um show com o Blues Etílicos no Circo Voador que deveria ser reeditado. A primeira vez que eu ouvi o vinil de “Entre e Ouça”. Um site que ele tinha lá por volta de 97, que me fez descobrir e comprar todas as suas referências. Em especial, Donny Hathaway. A trilha de Pequeno Dicionário Amoroso. Um show na Oca do Ibirapuera onde ele cantou as suas influências, com destaque para Whole Lotta Love. A quantidade de vezes que escutei “Manual Prático”. A voz. A voz que parece tornar qualquer canção melhor do que ela é.

Não sou um grande fã de “Piquenique”, nem tenho roupa para entrar em “Aystelum”. Adoro “Chapter 9” e passeio curiosamente por “Dwitza”. Já vi o Ed Motta se complicar ao dizer que não gostava de música brasileira para depois descobrir que não era bem assim. Já o vi cantar em edmottês e defender que não via sentido nas letras. Em seguida, fazer parcerias com grandes letristas. Já me irritei com algumas longas explicações sobre vinhos ou chás. Com algumas cagações de regra. Só que mantive intacto o que admiro nele. Não pretendo gostar tanto no particular quanto no profissional. Ainda que eu acredite que deva ser bem divertido ouvir música e tomar uma cerveja com ele.

Entendo a indignação do Ed Motta com o cenário da música brasileira. Deve ser difícil ter que ficar vendo a ascensão de tanta bobagem. Escuto AOR e comparo com o que toca nas rádios. Chega a ser covarde a diferença de qualidade. Tão covarde quanto crucificá-lo até hoje pelos comentários no Facebook. Ele errou rude. Só que isso não pode apagar a sua música.

Penso nas minhas vozes favoritas sem uma ordem de ranking. Otis Redding, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Donny Hathaway, Buddy Guy. Não tenho a menor dúvida que Ed Motta ficaria bem ao lado deles. Poderia ir para fogueira de novo com essa certeza. Meu conhecimento musical é bermuda de praia, o dele é traje de gala. Ainda assim, arrisco um conselho: keep singing and forget the social media, Ed. Vai por mim.

 

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3 pensamentos sobre “Acendam a fogueira.

  1. Gab disse:

    A mesma sensação que você, Kassu, me causa por gostar das letras do Marcelo Camelo.

  2. andrekassu disse:

    Eu gosto do Ventura e do Bloco do Eu Sozinho. Herege confesso. Prefiro as coisas do Amarante. Serve como atenuante? 🙂

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